HEALTH CARE CENTER
ARCHITECTURAL COMPETITION
MIRANDELA - PORTUGAL
2009

MEMÓRIA DESCRITIVA E JUSTIFICATIVA

Eu não conheço melhor serviço que um arquiteto possa prestar, como profissional, do que o de compreender que todo edifício deve servir à instituição do homem, quer seja ela a instituição do estado, quer a da casa, ou a da aprendizagem, da saúde, ou do lazer.
Uma das grandes deficiências da arquitetura, hoje, é que essas instituições não estão sendo definidas, mas apenas dadas por um programa, e transformadas em um edifício.
Louis I. Kahn

Dada a complexidade deste projecto, quer ao nível do programa quer ao nível da sua situação urbana e paisagística, a visita ao local foi fundamental para estabelecer o rumo da proposta.

O edifício existente revela bastantes problemas ao nível da organização do espaço, das relações entre as diferentes unidades, de dimensão e de iluminação. A entrada resolve de forma mais ou menos pacífica as diferenças de cota e apresenta-se como uma opção bastante inteligente de colocar os utentes a entrar no miolo do edifício. No entanto, depois deste primeiro contacto a circulação labiríntica atinge contornos muito estranhos e provoca grandes dificuldades na relação entre o corpo e o espaço, na leitura espacial, que deve ser o mais eficaz possível num edifício deste género.

Estas primeiras ilações foram confirmadas pelos profissionais que o usam no quotidiano. A estrutura concebida condiciona altamente o normal funcionamento do Centro, a todos os níveis. Os gabinetes são pequenos, as salas de espera misturam-se com zonas de cacifos dos profissionais, a sala de reuniões é também armazém, a sala de tratamentos é pequena e tem uma iluminação (natural e artificial) insuficiente.
Considerando as lacunas verificadas e, a forma como iria condicionar todo o processo em desenvolvimento, tanto ao nível espacial e organizacional como ao nível de custos, a opção de demolir o actual edifício e conceber um completamente novo – mais propositivo e adaptado às novas exigências, presente e futuras – surgiu como a mais ponderada.

Importa agora perceber quais foram os passos dados ao longo de toda a elaboração da proposta, desde a leitura do sítio e a forma como condicionaram a escolha da implantação, até às questões mais técnicas e de funcionamento das Unidades e do Centro, no seu todo.

Deve-se sempre explorar o carácter do sítio, a sua essência, porque o sítio está lá. Não há como atirar um edifício em algum lugar, desconsiderando a influência do que o rodeia. Há sempre uma relação. Louis I. Kahn

O terreno do Centro apresenta-se ao nível territorial numa situação altamente condicionada, e por isso muito bem identificável:
encontra-se numa zona claramente de transição, entre o núcleo urbano histórico, mais consolidado e, uma zona de carácter extensivo, mais residencial;
a Avenida dos Bombeiros Voluntários apresenta um carácter eminentemente urbano, com construção em altura, explorando tipologias do fim do século XX (a Galeria Comercial), com muito estacionamento, lagura de via e diversidade funcional – habitação, comércio, escritórios, instituições de saúde públicas e privadas, o edifício dos Bombeiros.
O terreno em questão assume-se como a charneira entre este ambiente movimentado e interactivo e zonas mais calmas, de relação mais próxima com a Natureza. A sua topografia condicionou, certamente, em grande escala, o desenho deste pedaço de cidade. A passagem brusca de uma zona para a(s) outra(s) revelam uma certa dificuldade em “coser” estes diferentes tecidos, isolando um pouco os edifícios que não ocupam a primeira linha urbana e o Circuito de Manutenção dos Castanheiros.




A opção de “virar” os edifícios, projectando galerias e todos os acessos, para a Avenida e, distinguir assim, claramente, a frente e a traseira, advém também de uma outra condicionante importantíssima: a da exposição solar. Ao virarmos o edifício para a dita Avenida garante-se uma exposição solar adequada quer ao sítio quer às funções a desempenhar no Centro.
Além da frente urbana consolidada formada pelo conjunto das galerias comerciais há um outro ponto muito importante na Avenida dos Bombeiros Voluntários: o edifício que lhe deu o seu nome. A sua forma assente em volumes de grandes dimensões, dispostos de forma simétrica e sem aberturas para a rua, exige uma resposta adequada do outro lado da rua.
Relativamente a este último ponto, resistiu-se a uma resposta mimética e imediata, e procura-se estabelecer um equilíbrio nesta tensão através de um espaço vazio, em vez de um cheio. Esta opção permite também rematar a perspectiva da Avenida, preparando os transeuntes para uma transição espacial. A abertura do vazio procura também afirmar a presença do Circuito de Manutenção dos Castanheiros, abrindo um pouco os campos de relação visual. O carácter de edifício-rótula é tido como uma das premissas-base da implantação: rótula entre tecidos urbanos, rótula entre ambientes, rótula entre ruas, rótula entre diferentes alturas.
Uma das ideias fortes que ficou da conversa com os profissionais do Centro de Saúde diz respeito ao seu âmbito: “utentes e não doentes”, disseram-nos. Muita gente a entrar e a sair, com uma actividade muito forte em horário laboral. Além de obvias preocupações ao nível do detalhe construtivo e dos materiais a adoptar, foi antes necessário reflectir acerca da forma de funcionamento e da sua capacidade de responder a questões de muitos níveis diferentes: o uso dos utentes, o uso dos profissionais de atendimento, de consulta, de trabalho administrativo, de manutenção e de gestão. A facilidade de comunicação e de passagem entre as diferentes Unidades é tida como um elemento estruturante da concepção do Centro, gerando-se uma forma una e concentrada, que pretende responder eficazmente e cabalmente às questões que surgem e poderão surgir, no quotidiano.

Tentar gerir a complexidade com muita clareza Inês Lobo

A frase da arquitecta Inês Lobo, proferida numa recente entrevista à Revista Arq./a, sintetisa de forma eloquente um problema intrínseco à Arquitectura. E, além de mais, torna-se cada vez mais evidente esta ideia, dada a enorme carga disciplinar, legislativa e cooperativa de cada projecto. Quando falamos de um edifício com características muito técnicas e específicas, atinge-se um estado quase pleno de condicionamentos técnicos.
Para lidar com esta problemática, além de uma atitude preparada para a interdisciplinariedade e cruzamento, é fundamental trabalhar com instrumentos de construção espacial elementares, utilizando temas e formas de organização simples, e que ajudem
Funcionalmente o edifício adopta um sistema com uma lógica muito simples e que se repete em todos os pisos: um corredor central